

Chegamos ao ponto crucial de toda criação cênica: a hora das escolhas. De escolher o que realmente cabe no espetáculo, o que compõe com a linguagem.
É nesse momento que devemos praticar o desapego, e é tão difícil. Tanta coisa boa produzida, tanta coisa experimentada, tanta coisa que gostamos, que até acreditamos, e tudo e tal.
Mas nos surgem as dúvidas.
Sem elas os espetáculos durariam dias, teria de tudo, contariam todas as histórias de cada personagem, teriam todas as músicas, todas as cenas, todas as coreografias, todos os texto escritos e improvisados. Ainda bem que surgem as dúvidas. Ainda bem que elas surgem a tempo de se encontrar respostas.
O ano era 2006, a pesquisa de linguagem era para o espetáculo Vozes de Ngoma (ngoma = tambor em Banto). Estávamos no interior de Minas Gerais, em Mariana, no ateliê, estúdio, oficina do percursionista Magrão. E no meio de tantas invenções sonoras, tambores de todas as formas, rocas girando ondas do mar, encontramos conchas que tocadas caiam chuva.
O som era lindo e ficou guardado em um lugar qualquer da memória.
“Preciso resolver o problema da chuva da primeira cena”. Dizia Edivan Freitas em todas as nossas conversas sobre o espetáculo.
(O diálogo que segue é baseado em fatos reais)
Edivan - Bater os dedos na palma das mãos!
Nieve - Um clichê.
Edivan - Os atores podem amassar papel celofane!
Nieve - Não vai funcionar na rua.
Edivan - Pau-de-chuva você não quer?
Nieve - Corro de tambor e pau-de-chuva em teatro NA rua.
Edivan - Podemos encher umas latinhas com areia para os atores manipularem.
Nieve - Eles estarão com os objetos de cena, seria impossível fazer tudo ao mesmo tempo.
Edivan - Cloc, cloc. Podem fazer o som com a boca.
Nieve - Vamos tentar!
...
Nieve - Ficou lindo! Mas ainda é pouco, não funciona.
Edivan - E se pendurássemos alguma coisa no guarda-chuva? Eles poderiam fazer o som enquanto seguram os objetos.
Nieve - Conchas! Uma vez eu vi um instrumento de conchas...
...
“Todas as águas vão dar no mar.”
Nossas águas vieram do mar, do mar da minha memória inundada pelas Minas Gerias.
Nieve Matos
Às vezes é preciso desconstruir para construir. É claro que essa frase não é minha, mas é o que eu sinto agora em relação ao processo de montagem.
Desconstruir o texto em primeiro lugar. E este só pode ser reconstruído com a colaboração dos atores. Não acredito em uma dramaturgia imóvel, de gabinete. A dramaturgia tem que estar viva, servir ao espetáculo, ao contrário do que faz costumeiramente por essas bandas, o espetáculo servir a dramaturgia.
O corpo do ator deve estar disponível pra isso e os olhos e ouvidos do encenador também.
É como fazer uma rua de paralelepípedo: primeiro temos quebrar a imensa pedra, moldar os retângulos e depois vem a parte mais difícil, encaixar os blocos irregulares lado à lado, construindo o caminho até onde você quer chegar.
Saulo Ribeiro não reconhecerá mais nossa dramaturgia. Graças a Deus!!
Nieve Matos
A saga de um agrupamento de dramaturgos, atores, músicos e figurinistas na criação de um espetáculo teatral de rua.
Imagens dos ensaios, relatos do processo de criação, páginas do caderno de direção, angustias e desabafos serão descritos neste DIÁRIO DE BORDO virtual.
A peça conta uma parte da história das irmandades religiosas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e do Convento de São Francisco os “Peróas” e “Caramurus”. De como surgiram as irmandades depois do roubo da imagem de São Benedito.
A proposta da direção é levar o espetáculo para as ruas dando acesso ao teatro e a história de nossa Ilha a todos. E o nosso primeiro passo é este blog, aberto a quem quiser acessar, comentar e trocar informações com os criadores.
Sejam todos bem vindos!